cultura do cancelamento no brasil

27-02-2021

Cultura do cancelamento: casos famosos e consequência na saúde mental

Você sabe o que é cultura do cancelamento? No post de hoje vamos explicar o conceito, suas várias facetas e o reflexo na saúde mental de cancelador, cancelado e do público em geral.

 

Nas últimas semanas, escrevemos uma sequência de posts sobre cyberbullying, cyberbullying no Brasil e bullying escolar.

Tudo isso em meio a um ano pra lá de curioso no entretenimento em nosso país, com a bola de neve (e xingamentos) criada pelos programas de Reality Show de 2021.

Hoje em dia, falar sobre cultura do cancelamento é quase uma obrigação em qualquer blog que aborde o tema bem estar mental.

Então aqui vamos nos.

Mas neste caso, com uma abordagem focada nos efeitos psicológicos disso tudo, com a opinião de  profissionais da área da saúde.

Vamos lá?

 

O que é cultura do cancelamento?

karol conka e a cultura do cancelamento
Você lembra? Karol Conká tornou-se o principal exemplo de cultura do cancelamento no Brasil | Foto: reprodução

 

Eleito o termo do ano em 2019, a cultura do cancelamento explodiu de vez no Brasil neste início de 21, muito em função dos eventos do BBB.

Claro que os usuários mais assíduos das redes sociais, principalmente do Twitter, já o conheciam há mais tempo. Na verdade, até mesmo antes de isso se consolidar como um termo em si.

Mas sua democratização é relativamente recente.

Podemos definir a cultura do cancelamento como este comportamento vigilante dos usuários das redes para fazer justiça através do boicote.

Ou seja, para “cancelar” um pessoa famosa, ou uma marca, internautas criam uma verdadeira campanha para que mais e mais pessoas parem de segui-lo nas redes sociais, consumir os seus produtos, conteúdos, enfim.

A ideia é fazer com que o “cancelado” perca relevância, principalmente na internet.

boicote

 

Mas por que as pessoas são canceladas?

 

Aí é que está.

Hoje, o termo exala um ar bem mais pesado comparado quando ele surgiu.

Isso porque, a cultura do cancelamento nasceu com uma intenção legítima: educar pessoas quanto a comportamentos inadmissíveis em uma sociedade moderna.

Normalmente, as pessoas que são canceladas demonstraram algum comportamento racista, homofóbico, xenofóbico, relacionamento abusivo, entre outros.

Desrespeitar o meio ambiente, os animais, humilhar alguém são outros exemplos que podem levar alguém a ser cancelado.

Este tal júri popular das redes sociais acontece de maneira orgânica/espontânea. E, sim, teve um papel muito importante na disseminação de causas que mereciam uma atenção maior tanto da mídia quanto da própria população.

A polêmica reside na sua execução e na incerteza quanto a sua efetividade em resolver o problema raiz.

emicida fala sobre cultura do cancelamento

 

Analisando os dois lados da moeda na cultura do cancelamento:

 

Não é só de cancelador e cancelado que vive a cultura do cancelamento.

Em alguns casos, podemos incluir a pessoa/entidade que foi ofendida/agredida. Sem falar no público que assiste a tudo isso, participando do movimento ou não.

O que estamos querendo dizer aqui é que reduzir a cultura do cancelamento em um lado bom e outro ruim, não é o suficiente. O problema é mais complexo.

Em uma entrevista para o G1, o psiquiatra Galiano Brazuna ressalta que “apesar da ideia ser nobre, a execução pode apresentar problemas. O cancelamento age como uma punição mais do que como apontar uma conduta errada e permitir que aquele que cometeu o erro se redima. Ao mesmo tempo aquele que pede o cancelamento pode estar fazendo um julgamento precipitado de situações que por vezes são mais complexas do que aparecem na mídia”,

 

 

Errando tentando acertar

 

Os movimentos de cancelamento tiveram um papel fundamental na disseminação de assuntos urgentes, como a questão do racismo e do feminismo.

Mas não há como ter certeza se o ato em si pode de fato resolver o problema.

Além disso, é notório que este movimento influencia também na polarização das opiniões, na intolerância e falta de diálogo. Sem contar que o julgamento das redes sociais está longe de ser algo preciso.

Basta lembrar do exemplo do americano Emmanuel Cafferty:

emmanuel cafferty
Entenda o caso de Emmanuel Cafferty

Ele voltava do trabalho com o carro da empresa, com os braços pra fora, estalando os dedos. Alguém tirou uma foto e compartilhou nas redes sociais alegando que aquele era um sinal utilizado pelas supremacias brancas dos Estados Unidos. O homem teve sua vida virada de cabeça para baixo e perdeu o seu emprego. Posteriormente, até mesmo o autor da foto admitiu que poderia ter exagerado em sua interpretação.

Enfim, embora a intenção fosse nobre, o fotógrafo e as milhares de pessoas que participaram do movimento agiram sem nem cogitar que poderiam estar erradas. E, muito menos, que do outro lado, estava um ser humano.

Resumindo: é fundamental que nós, como coletivo, passemos a pensar também naquilo que levou uma pessoa a agir de determinada maneira. Assim como se, a justiça exigida nas redes sociais é de fato algo positivo. Se vai ajudar o mundo a se tornar um lugar melhor, ou apenas responder a uma comoção coletiva momentânea.

 

Cultura do cancelamento X saúde mental: do cancelador, do cancelado e do público em geral

 

É difícil mensurar as vantagens e desvantagens da cultura do cancelamento para a sociedade em geral.

Mas, quando nos aprofundamos nas questões da saúde mental, a balança pende muito mais para o lado danoso.

Para o Zeny, a psicóloga Camila Domingos da Silva afirma que cultura do cancelamento gera impactos mentais tanto em quem é cancelado quanto no cancelador:

“De um lado, temos os canceladores, que podem se tornar críticos demais e até mesmo intolerantes. Do outro, o cancelado. Que sente os impactos em sua saúde mental, com o abandono, o desprezo e até mesmo o esquecimento.”

Ela continua: “Somos seres sociais e isso significa que não fomos feitos para viver sozinhos. O distanciamento que a internet traz, que ao mesmo tempo deixa tudo visível, é palco de conversas agressivas e o início de represálias. O cancelamento pode vir de diferentes maneiras. Desde o boicote aos produtos ou até mesmo prejuízos morais. Como é o caso de linchamentos e até mesmo ameaças físicas.”

 

Para o cancelador:

 

Também conversamos com a psicóloga Vanessa Martins da Silva (CRP 06/168080). Ela afirma que “para a pessoa ou grupo que pratica essa ação de “cancelar”, as consequências são menos nítidas por não serem negativas, pelo menos não a curto prazo.

Mas ela alerta:

“Os sentimentos imediatos de poder, controle e de fazer justiça social são predominantes. Isso ocorre principalmente pelo fato de vivermos em uma sociedade punitivista que ensina que essa é a melhor forma de ensinar aquele que errou. Apesar disso parecer lógico, apenas ensina às pessoas ‘o que não devem fazer’ e não novas formas de se comportar e fazer certo das próximas vezes.”

Quem assume o papel de cancelador, acaba por lidar com ânsia por justiça, além de sentimentos como raiva, vingança.

A tal sensação de poder e a falta de empatia com quem está do outro lado, contribui, inclusive, com a polarização de opiniões.

Ou seja: é ódio gerando ódio, e, como falamos anteriormente, sem a certeza de que se está resolvendo o problema em si.

 

 

Para o cancelado:

 

Como somos um blog de bem-estar, e não de filosofia, não vamos discutir o conceito de justiça. Mas esta com toda certeza seria uma conversa bem oportuna sobre o tema. Por sinal, fica a dica:


Voltando agora à saúde mental, os efeitos do cancelamento são mais preocupantes.

A pessoa cancelada passa por uma tortura psicológica, o que pode resultar em problemas como ansiedade e depressão. Além de sintomas físicos e até mesmo em tentativas de suicídio.

A psicóloga Vanessa Martins da Silva afirma que o cancelado pode apresentar sentimentos de medo, insegurança em relação ao presente e ao futuro, além da sensação de que se encontra numa situação incontrolável e irreversível, já que foi “marcado” por sua atitude ruim do passado.

“O sujeito passa a assumir um papel de que nunca mais poderá errar se quiser seguir uma vida “normal”, colocando-se numa constante de ansiedade. Essa necessidade constante de fuga e medo de um erro futuro podem levar ao desenvolvimento de transtornos mentais, como é o caso da depressão, já que a pessoa passa a ser isolada e a se isolar, além de vivenciar perdas significativas em todas as áreas da vida, como, por exemplo, seus relacionamentos interpessoais, acadêmicos e profissionais.”

 

Os ataques virtuais:

 

Em nosso artigo sobre cyberbullying, que conversa diretamente com o assunto cancelamento e o seu linchamento virtual, destacamos que os ataques online passam para a vítima uma sensação de que está sendo atacada por todos os lados, resultando no sentimento de que não há como escapar.

Efeitos este que podem afetar esta pessoa de diversas maneiras:

  • Mentalmente: a pessoa sente-se chateada, constrangida, incapaz e com raiva;
  • Emocionalmente: sente-se envergonhada, perde o interesse pelas coisas que ama;
  • Fisicamente: sente-se cansada (ou perde o sono), ou tem sintomas como dor de barriga e dor de cabeça.

 

Algumas pessoas que já foram canceladas – e o porquê:

 

Aqui vamos dar um resumo rápido de alguns casos de cancelamento no Brasil.

 

 

BBB 21:

lumena
Foto: Reprodução

O programa foi um verdadeiro laboratório da cultura do cancelamento. Karol Conká, Lumena, Projota e Nego Di foram os principais atores deste experimento.

Embora o comportamento do público de toda forma de entretenimento seja, em geral, reacionário, a origem destas reações não é tão simples assim.

A explicação (superficial) para o caso se dá, no caso das duas primeiras, pelo bullying praticado com o participante Lucas Penteado. Além de um comportamento militante às vezes fora de contexto, que não agradou nem mesmo às pessoas que elas aparentemente defendiam.

Já no caso dos dois últimos, o cancelamento se apoia na relação com Lucas, assim como comentários machistas ao longo do programa.

Meses após a saída do programa, Karol Conká gravou um documentário mostrando como foi a repercussão do programa em sua vida:

Já o comediante Nego Di, expôs ataques em sua conta do Instagram. O que inclui até mesmo ofensas racistas.

Na época, tivemos uma série de personalidades falando sobre o assunto, relatando comportamento agressivo e abusivo de alguns dos envolvidos.

Porém, os casos de cancelamento são sempre muito mais complexos do que a simplicidade retratada em uma manchete jornalística, trecho de programa ou print no Twitter.

Além de que, infelizmente, a presença de pessoas querendo se aproveitar de tudo isso, para um lado ou para o outro, parece inevitável.

É importante que nós, como público, não nos precipitemos em nossos julgamentos, agindo pela emoção e não pela razão.

 

Gabriela Pugliesi

gabriela pugliesi
Foto: Reprodução

O caso da Digital Influencer Gabriela Pugliesi também ganhou grande notoriedade na mídia nacional. Ela, que foi uma das primeiras personalidades a contraírem o coronavírus, postou um vídeo em sua conta do Instagram, em uma festa em sua casa durante o período de quarentena, repetindo frases como “f#$&-se a vida”.

A partir do ocorrido, a influenciadora perdeu milhares de seguidores em sua conta e teve contratos de patrocínio cancelados.

 

Anitta

 

A Anitta vem se mostrando uma expert em lidar com o cancelamento. Nos últimos anos, vivenciou diversas polêmicas sem nunca deixar de se manter no topo.

A cantora já teve atritos com o público LGBT, sendo acusada de se aproveitar da causa sem de fato defendê-la. Recebeu críticas por não se posicionar politicamente. E por se relacionar com a cultura da periferia (segundo alguns internautas) apenas quando lhe convém.

 

Vale reforçar que neste post estamos apenas lembrando e resumindo alguns casos, sem nenhum julgamento de quem está certo ou errado. Até porque, não cabe a nós fazer isso.

 

Concluindo:

 

Nos encaminhando para o final do texto, queremos resgatar o depoimento da cantora americana Taylor Swift, que já sentiu na pele os efeitos do cancelamento:

Um envergonhamento público em massa, com milhões de pessoas dizendo que você está ‘cancelada’, é uma experiência muito isolante. Não creio que haja muitas pessoas que realmente possam compreender o que é ter milhões de pessoas que te odeiam. Quando você diz que alguém é cancelado, não é um programa de TV. É um ser humano. Você está enviando grandes quantidades de mensagens para essa pessoa para calar a boca, desaparecer. Ou algo que pode ser percebido como ‘se mate”.

 

A ideia do cancelamento é fazer com que o cancelado da vez mude sua atitude em relação a algo e que isso inspire a população em geral. Assim sendo, precisamos julgar se nossas atitudes não estão apenas dando continuidade a um ciclo de comportamentos duvidosos.

Acima de tudo, vale lembrar, existe um ser humano do outro lado. Com vida própria, família e entes amados que sofrem junto com a exposição causada pelo cancelamento.

 

Se você quiser continuar lendo mais sobre autoconhecimento e qualidade de vida, separamos aqui 5 posts que podem te interessar:

 

Relacionamento abusivo: o que é, características e como reconhecer

Ciúmes: o que é esse sentimento e como afeta o bem-estar da pessoa

Sintomas de Burnout: como reconhecê-los

9 dicas de motivação pessoal

O que causa ansiedade?

 

Mantenha-se sempre atualizado e acompanhe as nossas novidades. Comece agora a nos seguir nas redes sociais: Facebook, Instagram e também aqui no Blog Zenfy.